A ausência dos que partiram e o recomeço de quem ficou: acidente com ônibus da UFSM completa um ano

No pulso, Liandra Gabriele dos Santos, 25 anos, leva consigo as iniciais do nome dos amigos do curso de Paisagismo: R, C, E e P. O grupo se formou na primeira semana de aula, no ano passado. Doze meses depois, muita coisa mudou. Liandra estava no ônibus da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) que tombou durante uma viagem de estudos em Imigrante, em 4 de abril de 2025. Desde então, ela convive com a recuperação de uma cirurgia no joelho e com a ausência permanente deixada pelo dono da letra P da pulseira: o amigo Paulo Victor, uma das sete vítimas fatais do acidente.

Sobrevivente do acidente, Liandra ainda lembra com carinho dos colegas de cursoFoto: Vinicius Becker (Diário)


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Para a moradora do Bairro Passo d’Areia, o curso de Paisagismo foi o primeiro contato com a vida universitária. Liandra não tinha interesse pela graduação, foi então que procurou os cursos técnicos da universidade. Era uma boa oportunidade de se especializar e colocar em prática o gosto pelo desenho. Tudo ia bem e tinha ares de novidade até aquele dia 4 de abril. Por volta das 10h50min, o ônibus que levava alunos e professores até um cactário em Imigrante saiu da pista e caiu em uma ribanceira. Daquele momento em diante, a ficha foi caindo aos poucos.

– Você não espera que vai sofrer um acidente, mas eu estava lá. Minha família também não acreditava, demorou para cair a ficha. O bom é que eu estava com meu celular e consegui avisar todo mundo – lembra a estudante.

Liandra sofreu uma lesão no joelho esquerdo, com rompimento do ligamento cruzado anterior (LCA) e do menisco, o que exigiu uma longa espera até a realização da cirurgia. Foram 11 meses aguardando. Nesse período, conta que conviveu com dores, principalmente para subir ou descer escadas. Durante o processo de recuperação, Liandra também enfrentou dificuldades para realizar a cirurgia pelo Hospital Universitário de Santa Maria (Husm), com procedimentos cancelados mesmo após meses de espera.

– Eu esperei o ano inteiro pela cirurgia. Na primeira vez, cancelaram por emergência. Na segunda, eu já estava na maca, pronta, e descobriram que faltavam materiais. Me mandaram embora no mesmo dia – conta.

A situação só foi resolvida após a intervenção do Ministério Público, que viabilizou uma nova data para o procedimento. No último ano, mesmo com limitações causadas pela lesão no joelho, ela retornou ao curso. Ainda em recuperação, acompanha as atividades de forma remota. A rotina, no entanto, mudou completamente. Antes do acidente, Liandra conciliava estudos, trabalho e atividades físicas, com destaque para o futebol, praticado com frequência ao longo da semana.

Eu jogava bola quase toda semana. Se não estava na academia, estava trabalhando ou estudando, eu estava treinando ou jogando torneio. Domingo era muito raro me achar em casa. Depois do acidente, tive que parar completamente por causa do joelho. Faz muita falta – afirma.

Foto: Vinicius Becker (Diário)

Ao relembrar o período anterior ao acidente, o que mais permanece é a memória dos colegas. A convivência, ainda que breve, foi suficiente para criar vínculos marcantes. Liandra também recorda características de cada um dos colegas que perderam a vida, em lembranças que misturam dor e afeto. Entre eles, Paulo Victor, integrante do grupo mais próximo.

O Paulo marcou mais a gente porque era do nosso grupinho. Desde o começo, a gente se deu bem. Era eu, o Emerson, o César, o Paulo e a Rafaela. Tínhamos um grupo no WhatsApp para trocar mensagens sobre os trabalhos. Acho que foi o que mais doeu.

Apesar das diferenças de idade e perfis dentro da turma, Liandra lembra que o sentimento era de união:

– Havia gente mais nova, gente mais velha, mas era todo mundo junto. Consigo lembrar de todos eles. A Janaína e a Marisete sempre ficavam no cantinho da parede. Elas não eram de conversar, mas se tu falasse com elas, elas conversavam. A Flávia chegava do jeito elegante dela, com salto. A Fátima sempre tirava foto do quadro, mesmo sabendo que as coisas estavam no moodle (sistema de ensino da universidade). A Elizeth não tinha como não enxergar (risos) porque ela era alta e vinha conversar com a gente. E o Paulo… esse me marcou muito.

Agora, no pós-operatório, Liandra segue em fisioterapia e projeta, aos poucos, a retomada da rotina presencial.

– Estou fazendo fisioterapia e, este mês, começo duas vezes por semana. A recuperação está sendo boa. Já penso em voltar para as aulas presenciais, porque ficar em casa com a perna levantada não é fácil. Quero tentar voltar aos poucos.

Liandra se recupera da cirurgia feita em março deste anoFoto: Vinicius Becker (Diário)


Diário revisita histórias contadas do acidente

A reportagem revisitou duas das histórias contadas sobre o acidente: Eliane Ravazi Matos, que teve graves sequelas, e César Vielma, venezuelano que buscava no curso um recomeço no Brasil.


“Eu não quero desistir”, afirma Eliane

Eliane Ravazi Matos foi um dos casos de maior gravidade entre quem sobreviveu. Foram oito dias de internação e um dos momentos mais difíceis dos seus 56 anos: a notícia da amputação da perna esquerda. Além disso, sete costelas, a clavícula e a escápula foram quebradas. Um ano depois, já com a prótese, anseia em voltar aos estudos e ser um exemplo de fé e recomeço para outras pessoas.

– A gente procurou viver, buscando tudo que pudesse melhorar a nossa vida. Houve dificuldades, claro, coisas que impedem de viver como antes, mas a gente entende que não tem mais como voltar. Agora é daqui para frente, é um novo viver, um novo aprendizado, uma nova forma de enxergar tudo. Às vezes, você para, olha para as pessoas, vê alguém caminhando normalmente e pensa: “Puxa, se eu tivesse as duas pernas”. Isso vem, mesmo que a cabeça esteja bem, mas logo a gente tenta tirar esse pensamento, porque precisa seguir, precisa viver da melhor forma possível.

Já com a prótese, Eliane faz planos de voltar a rotina de trabalhos e estudosFoto: Vinicius Becker (Diário)

A rotina, que antes era marcada por autonomia e independência, mudou completamente após o acidente. Hoje, com o apoio da família, tem se dedicado à recuperação das lesões. Desde dezembro do ano passado, passou a contar com uma prótese que conseguiu por meio da Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais (Apae). Ainda assim, a locomoção tem sido limitada, com o uso de muletas. Eliane busca na Justiça uma nova prótese e também uma indenização por todos os danos causados pelo acidente.

Agora, o desejo também é de concluir o curso de Paisagismo. Mais do que um objetivo profissional, a continuidade dos estudos passou a representar uma forma de não interromper a própria trajetória.

Eu não quero desistir. Quero voltar, quero estudar, quero rever meus colegas, se for possível, ou então conhecer novas pessoas. Quero chegar lá e ser vista não só como alguém que sobreviveu ao acidente, mas como alguém que seguiu, que continuou – conta.

Foto do dia 1º de março de 2025. Eliane acabava de ter alta do hospitalFoto: Beto Albert (Arquivo/Diário)

Um ano depois, ela afirma não alimentar sentimentos de revolta, mas reforça a importância de que haja responsabilização pelo acidente, como forma de evitar que situações semelhantes se repitam.

Eu não tenho raiva, não tenho ódio no coração, mas tenho um sentimento de justiça. Pelos que se foram e por nós que ficamos, com sequelas, com mudanças para o resto da vida. Ninguém queria estar nessa situação, mas já que aconteceu, que pelo menos haja respeito e que cada um tenha o que é de direito.


“É um dia que tem um peso muito grande”, disse César

Um ano depois, o venezuelano César Vielma, 25 anos, ainda convive com as marcas deixadas pelo que viveu. Ele era um dos alunos que estavam no ônibus, mas sofreu sequelas graves. Com a aproximação do dia 4 de abril, ele conta que as lembranças retornam com intensidade.

– Completar um ano desde o acidente não tem sido algo fácil para mim. É um dia que tem um peso muito grande, porque me faz reviver aquele momento e sentir ainda mais a ausência dos colegas que partiram. A saudade deles é algo que me acompanha constantemente – conta.

Após o acidente, César decidiu não retornar ao curso de Paisagismo, área que o trouxe ao Brasil, e buscou um novo caminho. Atualmente, estuda Moda na Universidade Franciscana (UFN), onde diz ter encontrado um espaço importante para o processo de reconstrução. Mais do que uma nova formação, a moda passou a representar uma forma de expressão. Hoje, além de estudante, César também desenvolve a própria marca.

– A moda, neste momento, tem sido mais do que um estudo. É uma forma de me reencontrar comigo mesmo, de transformar a dor em expressão e dar um novo significado à minha caminhada.

Atualmente, César cursa Moda e tem uma marca própria de roupas e materiais gráficosFoto: Vinicius Becker (Arquivo/Diário)


Relembre o acidente

O ônibus caiu em uma ribanceira e andou cerca de 50 metros até cair em uma lavoura, perto do trevo de acesso ao município de Imigrante, na região do Vale do Taquari, e deixou sete mortos e 26 feridos. Todas as vítimas fatais eram calouras do curso de Paisagismo do Colégio Politécnico da instituição. No total, 33 pessoas — estudantes, professoras e o motorista — estavam em uma excursão que faria visita técnica ao Cactário Horst (espaço dedicado ao cultivo de cactos e suculentas), em Imigrante, quando o acidente aconteceu. O ônibus pertencia à UFSM, mas o motorista era terceirizado.

Foto: Rogério Schmidt Jr. (Rádio Independente)


Quem perdeu a vida

Dilvani Hoch, 55 anos – Era de São Pedro do Sul. Amigos e familiares a descrevem como uma mulher com sonho e apaixonada por plantas. No ano passado, se mudou para Santa Maria para se dedicar ao Paisagismo e ficar mais perto da filha mais nova, de 20 anos. Ela também deixa o filho mais velho, de 27 anos.

Elizeth Fauth Vargas, 71 anos – Elizeth ingressou em 2025 no Colégio Politécnico. Sempre interessada por plantas, especialmente orquídeas, estava entusiasmada em cursar Paisagismo, conforme relato da família. Ela deixou duas filhas.

Fátima Copatti, 69 anos – Mãe, apaixonada por animais e fã de um bom baile gaúcho. É dessa forma que amigos descrevem Fátima, que era caloura do curso de Paisagismo na UFSM. Ela deixou quatro filhos.

Flavia Marcuzzo Dotto, 44 anos – Flávia é descrita pela família e amigos como uma mulher cheia de vida e querida por todas. Natural de São João do Polêsine, era gerente de uma das agências do Banrisul de Santa Maria.

Janaina Finkler, 21 anos – Natural de Estrela Velha, Jana, como era chamada, era fã de chimarrão e o curso era o primeiro contato com a vida universitária. Era a mais nova entre as vítimas fatais.

Marisete Maurer, 54 anos – Natural de São Pedro do Sul, é descrita como uma pessoa ímpar e um porto seguro para a família. Era a mais nova de dez irmãos. Deixou o esposo, duas filhas e um neto.

Paulo Victor Estefanói Antunes, 27 anos – Nasceu em Santa Maria e foi criado na Vila Brenner. Formou-se em Arquitetura e Urbanismo pela Ulbra em 2024. Amigos e familiares lembram dele como um jovem estudioso e amoroso.


Um ano após tragédia, há quem ainda espera por atendimento, afirma Associação

Em meio ao luto e recomeços, neste último ano, foi criada a Associação das Vítimas do Acidente em Imigrante, a Avapi. Carrega, no símbolo, a flor de lótus branca que representa pureza, superação e renascimento. Acima, há sete estrelas douradas que retratam as vidas perdidas no acidente.

Foi pela necessidade de ganharmos força – resume Cristina Zanini Santana, atual presidente da Associação, sobre a motivação para a criação do grupo.

Cristina (usando o microfone) é a atual presidente da Associação. Ao lado, Bianca e Ana Cássia, também membros do grupoFoto: Vinicius Becker (Diário)

A principal demanda, atualmente, tem sido a continuidade nos atendimentos médicos e psicológicos. Cristina explica que os sobreviventes buscam garantir a manutenção e a ampliação dos tratamentos, diante de dificuldades no acesso e demora nos atendimentos. Um dos casos citados é o de uma vítima que realizou cirurgia apenas 11 meses após o acidente, enquanto outros ainda aguardam procedimentos.

– A gente precisa que os nossos tratamentos sejam mantidos e melhorados. Não podemos perder o pouco que está sendo oferecido, porque são necessidades reais de quem teve a vida completamente transformada. Hoje, parece que a gente precisa provar o tempo todo aquilo que está vivendo – afirma.

Uma das “brigas”, conta Cristina, tem sido pelo atendimento, também, aos familiares das pessoas que morreram. Segundo ela, muitos parentes enfrentam dificuldades para acessar acompanhamento psicológico, inclusive com negativas judiciais por falta de documentação. Além da assistência à saúde, o grupo também tem atuado na busca por direitos na esfera judicial. As ações têm sido conduzidas de forma individual, com apoio de advogados, mas enfrentam dificuldades devido à falta de documentos que, conforme o relato, dependem de fornecimento por parte da universidade.

Outro ponto levantado pela Associação é a percepção de que os sobreviventes e familiares têm sido vistos como um custo.

– A impressão que passa é que a gente precisa estar mendigando por uma consulta, por um exame, por um ressarcimento. E não é isso. A gente está pedindo o que precisa para seguir vivendo – relata Cristina.


“Reuniões muito desgastantes”

Conforme o relato, a primeira reunião com familiares e vítimas ocorreu dois meses após o acidente, com o reitor em exercício na época, Luciano Schuch. Na ocasião, foi sinalizada a realização de encontros periódicos, o que não se manteve ao longo do tempo. Atualmente, o contato com a universidade ocorre principalmente em reuniões com o Ministério Público estadual.

– São sempre reuniões muito desgastantes. A gente sai sem respostas concretas, com encaminhamentos que ficam para depois, enquanto as nossas necessidades continuam urgentes – afirma.


Impacto emocional

Além disso, Cristina relata dificuldades que vão além do físico. Hoje, também precisa conviver com problemas de memória, no cognitivo e na saúde mental. Situações do dia a dia, como deslocamentos de carro ou ônibus, ainda desencadeiam lembranças do acidente.

– A gente costuma dizer que entra e sai do ônibus. Tem dias em que parece que está tudo bem, mas, de repente, algo traz tudo de volta. É uma montanha-russa emocional – descreve.

Foto: Vinicius Becker (Diário)


O que diz a Universidade

A Universidade Federal de Santa Maria afirma que, desde o acidente, mantém uma rede de acompanhamento aos sobreviventes e familiares que, segundo a reitora Martha Adaime, “ainda existe” e seguem atendendo às demandas apresentadas. O serviço tem um equipe multidisciplinar composta por psicólogos, psiquiatras, enfermeiros, fisioterapeutas e terapeutas ocupacionais.

De acordo com a gestora, a universidade estruturou uma rede de apoio psicossocial e de saúde, vinculada à Coordenadoria de Ações Educacionais (Caed), que acompanha caso a caso os envolvidos.

– Nós temos todas elas (demandas) pontuadas e todas elas que estão dentro da legalidade são atendidas – afirmou.

Entre as ações, estão o custeio de serviços de saúde, aquisição de medicamentos e o acompanhamento por profissionais como psicólogos, fisioterapeutas e terapeutas ocupacionais. Apesar dos esforços, a reitora reconhece que há limitações, especialmente relacionadas aos trâmites do serviço público e ao funcionamento do Sistema Único de Saúde (SUS).

– Há processos burocráticos dentro do serviço público que muitas vezes funcionam aquém das nossas expectativas e que não dependem da nossa gestão. Nós somos obrigados, por exemplo, a comprar medicamentos ou serviços por meio de licitação ou justificativas formais, porque estamos sob fiscalização dos órgãos de controle.

Sobre a demora em alguns atendimentos, como cirurgias, Martha ressaltou que a universidade não tem autonomia para interferir na ordem do sistema de saúde:

– Hoje, você não consegue e não deve entrar no início da fila do Sistema Único de Saúde. A única forma de alguém entrar na frente é por decisão judicial. Nós, como instituição, não conseguimos isso, porque o nosso hospital é 100% SUS, com entrada única e regulada por critérios técnicos.

Reitora falou sobre a assistência às vítimas do acidenteFoto: Vinicius Becker (Diário)

A reitora também reconheceu que, mesmo com os esforços, não é possível reparar integralmente os danos causados:

– Nunca vamos conseguir reparar 100% os danos, nem atender totalmente todas as expectativas. Estamos fazendo aquilo que é possível dentro dos limites legais, buscando sempre acolher, ouvir e encaminhar cada demanda.

Sobre o atendimento psicológico aos familiares, a reitora afirmou que o serviço foi ofertado, mas houve baixa adesão logo após o acidente. Por isso, a equipe teria priorizado os sobreviventes. Nas últimas semanas, a universidade retomou esse atendimento em articulação com o Ministério Público.

– Houve um pedido para atendimento psicológico aos familiares e a equipe reabriu essa possibilidade, novamente com estrutura completa para acolher essas pessoas – concluiu.


Andamento da investigação

A investigação segue sem conclusão. Em maio de 2025, 40 dias após o acidente, o inquérito foi concluído pela Polícia Civil. Três pessoas foram indiciadas: Rodolfo Bopp, que era o motorista do ônibus, o responsável pelo núcleo de transporte da UFSM e o representante da empresa que contrata os motoristas. No mês seguinte, o Ministério Público do Rio Grande do Sul (MPRS) recebeu o inquérito, mas o caso ainda não chegou à Justiça. Segundo o MP, foi feito um pedido à Polícia Civil e ao Instituto Geral de Perícias (IGP) de perícias complementares para, só depois, tomar uma decisão. À UFSM, foi pedido o conteúdo da sindicância interna, que já foi entregue ao Ministério Público.


O que diz o MP

“O Ministério Público do Rio Grande do Sul (MP) recebeu a sindicância instaurada pela UFSM. São cerca de 3 mil páginas que estão em análise – sem prazo – pela Promotoria. Em relação a pedidos feitos para Polícia Civil e IGP, o MPRS segue aguardando retorno de laudos.”


Motorista segue sem trabalho 1 ano após acidente

Em entrevista ao Diário, um mês depois do acidente, o motorista do ônibus, Rodolfo Bopp, relatou o impacto da tragédia e a impossibilidade de evitar o ocorrido, pois o ônibus ficou sem freio: “Eu jamais sairia de casa pensando que uma coisa dessas fosse acontecer. Jamais. Eu tenho uma convivência boa com os alunos e os professores que eu conheço. Se tivesse como parar, eu teria parado o ônibus, porque eu também poderia morrer.”

Quase um ano depois, a defesa apresentou novas atualizações sobre o caso. O advogado Flávio Barreiro, que representa Rodolfo Bopp, contesta a decisão pelo indiciamento do cliente. Ele afirma que o motorista não tinha responsabilidade sobre eventuais falhas mecânicas:

– A obrigação dele era verificar as condições externas do ônibus, como pneus, óleo e água. Problemas internos, como freios ou motor, não eram de sua responsabilidade.

O advogado que representa o motorista recebeu o Diário para atualizaçãoFoto: Beto Albert (Arquivo/Diário)

No campo profissional, a situação também se agravou. Após a rescisão do contrato da empresa terceirizada com a universidade, o motorista perdeu o emprego e não conseguiu mais colocação formal. A alternativa, ainda segundo o advogado, foi trabalhar como motorista de aplicativo.

Faz um ano que ele não consegue emprego com carteira assinada. Hoje trabalha como motorista de aplicativo, o que foi o último recurso para sustentar a família – relatou o advogado.

Além disso, a defesa aponta impactos psicológicos desde o acidente. Segundo Barreiro, Bopp enfrenta dificuldades para dormir e precisou buscar acompanhamento:

Ele não consegue dormir desde então. Isso deixou uma marca profunda nele e em toda a família.


Um ano depois, a saudade que permanece nas famílias

A pedido do Diário, familiares das sete pessoas que perderam a vida no acidente falaram sobre o sentimento e a saudade um ano depois. 


Dilvani Hoch 

“É muito difícil, a gente não esperava. Foi um susto e sentimento é de muita falta dela. Queria ter aproveitado mais. Nem sempre a gente podia dar toda atenção para ela, e agora qualquer momento com ela faz muita falta. Era uma pessoa nova ainda, muito especial. Tem sido bem difícil”, afirma o filho Henrique Hoch, 28 anos

Foto: Vinicius Becker (Diário)


Elizeth Fauth Vargas

“Foi um ano bem difícil sem ela, porque ela era bem essencial para gente, para nossa família. Ela ajudava com tudo. Sem ela aqui, fisicamente, sentimos saudade, mesmo que a gente fique feliz e confortável com as memórias boas que ela deixou, porque ela era uma pessoa boa e iluminada”, afirma o neto Lucas Vasseur da Silva, 17 anos

Foto: Vinicius Becker (Diário)


Fátima Copatti

“Foi o primeiro ano na minha vida sem a minha mãe. Então, é um aprendizado, um novo mundo. A gente sempre pensa que a ordem natural das coisas torna elas mais fáceis, mas ela era uma pessoa próxima da família, era uma presença muito forte. O que resta é continuar tendo uma boa vida pra ela sentir orgulho e só lamentar ter perdido ela dessa maneira tão estúpida e imprudente”, afirma o filho Diego Copatti, 46 anos

Foto: Vinicius Becker (Diário)


Flavia Marcuzzo Dotto

“A pessoa fantástica que eu convivi durante 20 anos e a ausência dela tem sido muito difícil. Eu tenho dado suporte para os meus filhos e para algumas pessoas da família. Foi difícil passar por todas as datas: Páscoa, Dia das Mães, aniversários, e Natal e o Ano Novo porque sabia que não teria ela em 2026. O que resta para nós é a saudade e o sentimento de raiva e desprezo pela instituição e pelo ex-reitor, que não fizeram quase nada para nós”, afirma o marido Gésiner Manhago, 47 anos

Foto: Thais Immig (Arquivo/Diário)


Marisete Maurer

“A saudade dela é cada vez mais sentida, os dias se passando e a sensação de injustiça crescendo. É dificil pensar que um dia alegre e de expectativas se tornou um dia nublado e de dor para nós, minha mãe era uma mulher sensível, divertida, alegre, que gostava de viver a vida e conhecer mais dela. Ela vive dentro de nós, mas dói saber que a partida dela foi trágica e até hoje não há responsável algum por esse fato. Não foi acidente, foi irresponsabilidade, impericia e imprudencia! A vida continua sim, mas sem a pessoa que compartilhavamos sonhos e desejos”, afirma a filha Miriã Maurer 

Foto: Arquivo Pessoal


Paulo Victor Estefanói Antunes

“Foi um ano de muito sofrimento, de buscar força para manter a memória dele viva. É claro que tem esse sentimento de querer justiça, mas esse ano agora que passou foi mais de apoio. Para os meus pais, meus filhos e meu sobrinho que eram bem grudados nele. Então, foi mais de apoio. Estamos tentando superar. É uma família bem unida, estamos tentando ficar juntos”, afirma o irmão Aygor Felipe Estefanói Antunes, 32 anos

Foto: Vinicius Becker (Diário)


*A reportagem também tentou contato com a família de Janaina Finkler, mas não teve retorno até a publicação desta reportagem 

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